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A TRADIÇÃO NGAKPA

 

 

 

Ordenação Tântrica: a tradição Ngakchang
por Ngak’chang Rinpoche

A tradição ngakphang é colorida, individual e altamente heterodoxa. Os ngakpas e ngakmas que vestem túnicas são membros ordenados dessa tradição. Não são nem "leigos", nem "monges", nem "meio a meio" e desafiam toda tentativa de serem classificados nas categorias organizadas e limpas das instituições autoritárias. Formam uma modalidade de prática paralela àquela mais difundida pelos monges e pela sangha monástica, e para os ocidentais representam a oportunidade de estabelecer o altíssimo compromisso com o caminho budista sem ter de ser celibatário. Quem tem lido regularmente a publicação ‘Sang-ngak-cho-dzong’, durante os últimos dez anos, familiarizou-se com o termo "nagkphang" e as palavras "ngakphang sangha".


A maioria das pessoas que tem alguma familiaridade com o budismo e aquelas que têm apenas alguma leitura básica sabem que a imagem dominante da prática budista é a monástica. Sabem que isso é verdade principalmente no Oriente e também em parte verdadeiro no Ocidente, em especial nas propostas dos centros de difusão mais importantes. Muita gente no Ocidente que já teve ensinamentos budistas, recebeu-os de monges ou monjas ou, em todo caso, escutaram-nos de estudantes leigos que tem mestres monges. Algumas dessas pessoas leigas costumam ser ex-monges ou ex-monjas, e outras foram estudantes escolásticas de mestres celibatários. Procuramos informar o ocidental a respeito das tradições que não são conhecidas como tradições monásticas. Começamos com um audaz, determinado e muito deliberado empenho de facilitar o acesso a algo que é oculto, mas que existe desde o amanhecer do tantra budista na Índia: a tradição ngakphang.   Começaremos por olhar o termo “ngakphang sangha”. O que significa “ngakphang”? “Ngak” é o equivalente tibetano de mantra, palavra sânscrita que pode ser entendida de muitas maneiras de acordo a cada tradição - e inclusive segundo os conceitos da ‘new age’. Esta talvez não seja a ocasião para definir mantra de um modo muito especifico ou ajustado. Mantra significa aquilo que protege a mente, mas “ngak” não é uma tradução exata já que significa "feitiço”, "palavra", ou "palavra de poder" segundo o contexto. As publicações ‘Sang-ngak-cho-dzong’ comumente traduzem “ngak” como "consciência-feitiço" para transmitir um pouco do sabor de como se entende esse termo. É um "feitiço" que consegue algo original ou extraordinário, mas que se vincula à consciência. Esta, neste contexto, significa “rigpa” - o estado não dual da presença instantânea. Nesse sentido "consciência-feitiço" aproxima-se do significado de mantra, que protege a mente. “Phang” significa "esgrimir"; significa "ter o poder e a autoridade para usar algo"; significa ter a habilidade e experiência para realizar algo, e aqui, a ferramenta, o método para a realização é “ngak”. Conectadas à palavra “ngakphang” estão as palavras “ngakpa” e “ngakma”. “Pa” e “ma” têm uma significação quase igual que seu som em espanhol, pois é indicativo de homem e mulher. “Ngakpa” é um praticante ngakphang homem e “ngakma” é um praticante ngakphang mulher. A expressão “ngakphang sangha” refere-se à comunidade de praticantes ngakphang ordenados. Utilizamos mais a palavra “sangha” que seu equivalente em tibetano “gendün” simplesmente porque a palavra “sangha” é mais conhecida na comunidade budista do ocidente. Nosso objetivo é comunicar e não ficar inovando usando a palavra tibetana.

 

Entende-se “Sangha” de diferentes maneiras, segundo cada tradição. Algumas delas - particularmente a da tradição Theravadin e a da escola Gélug - estabelecem que “sangha” significa comunidade de monges e monjas. Em outras tradições a sangha engloba todos os praticantes ativos. Se nós tivéssemos de eleger entre ambas as definições, escolheríamos a definição mais inclusiva, mas afortunadamente existem outras definições. É comum dentro da tradição Nyingmadescrever os discípulos de um lama como “sangha”, e essa definição também é moda entre os lamas Ka-gyüd e Sakya. Obviamente essa é uma maneira útil de usar a palavra, e concorda com o sentido de comunidade espiritual, o qual é vital do budismo e será comum para pessoas ocidentais. Há ainda outro uso da palavra “sangha”, em que se fala de “sangha ordenada” ou “das sanghas” - existem dois. As comunidades ordenadas formam uma sangha vermelha de monges e monjas, e a sangha branca é integrada por ngakpas e ngakmas. Isso é algo que unicamente sustenta a Tradição Nyingma. Existem ngakpas e ngakmas na escola Sakya e Ka-gyü, mas eles não são considerados “sangha”. A característica especial da escola Nyingma é que reconhece a validação da ordenação ngakphang por ser igual à ordenação monástica e que é uma das duas alas reconhecíveis da tradição Nyingma. 


Padmasambhava puxou e ironizou a barba de Tri-song Détsen apenas com seu olhar.


Desde o tempo do Rei Tri-song Détsen (c. 740-798), as sanghas vermelha e branca da tradição Nyingma sentam-se dos lados direito e esquerdo da assembléia de praticantes. No tempo do Rei Ralpachen (reinado 815-836, assassinado c. 836) houve uma ocasião famosa na qual o Rei Ralpachen soltou sua longa trança de cabelo; deixou-o solto de forma tal que ambas as sanghas se sentaram sobre seu cabelo. A sangha vermelha sentou-se do lado direito, e a sangha branca, do lado esquerdo. Com isso quis mostrar que havia considerado as sanghas ordenadas com mérito igual ao dele mesmo como rei. Esse é um dos pontos importantes na história da sangha branca; mas ironicamente, é o ponto em que o irmão de Ralpachen chegou a ser tão insensato que decidiu que deveria assassiná-lo. Esse irmão de Ralpachen, de violentas intenções, era nada menos que o notório Langdarma. Ainda que frequentemente mostrado como restaurador do Bön, não é certo que o fosse - realmente propôs simplesmente restituir monarquia, e a si mesmo como Rei. Sob o sistema Bön, o Rei tinha a posição mais elevada na terra; mas com o budismo, especialmente o Vajrayana, essa posição foi radicalmente alterada. Quando Padmasambhava veio ao Tibete, o Rei Tri-song Détsen esperava encontrá-lo como igual, mas teve que enfrentar imediatamente sua própria insuficiência. Padmasambhava puxou a barba de Tri-song Détsen com um olhar, e o rei, sabendo sua posição em relação à Padmasambhava, imediatamente ofereceu suas prostrações. Esse ponto marcou o final da monarquia secular no Tibete, e até tempos recentes o Tibete foi uma teocracia

 

O principal objetivo do ataque de Langdarma, depois do assassinato de seu irmão e sua reivindicação da soberania, era as instituições monásticas. Destruiu mosteiros e forçou os monges a casarem-se e abraçarem a religião Bön. Sua intenção também era destruir a sangha ngakphang, mas decidiu isolá-la. Tentou destruir o principal praticante ngakphang, mas quando enfrentou Vairochana, este mudou sua mente. Vairochana manifestou um escorpião do tamanho de um yak sobre a cabeça de Langdarma, e o Rei, aterrorizado, decidiu que se contentaria em submeter-se aos mosteiros. Depois da ascensão de Cho-gyal Ralpachen, seguiu-se um período durante o qual o budismo fez-se subterrâneo. Durante esse período, os lamas ngakphang mantiveram viva a linhagem Nyingma, razão pela qual são mantidas em altíssima estima na Escola Nyingma. Se não fosse pela sangha ngakphang, a linhagem Nyingma estaria morta. A história desse período é obviamente muito mais complexa e detalhada do que se descreve aqui, ainda que se espere que seja suficiente como introdução à nossa tradição.  


Esta é obviamente uma maravilhosa oportunidade para aqueles que são inspirados pelo budismo, ainda que sua personalidade não se harmonize com o celibato. Mas isso também possui um pouco de ameaça para quem vai ao budismo primariamente monástico, do que para quem considera como seu dever conservar a primazia do estado monástico no estabelecimento do budismo no ocidente. Muita gente considera que há unicamente duas possibilidades dentro do budismo: "monge" ou "leigo", e principalmente a opção "leigo" é vista como inferior, a menos que uma pessoa chegue a ser tulku tibetano, aqueles que tomaram os votos monásticos ou nunca os receberam. Mas "leigo" é uma palavra que tem sido usada por muitos budistas de língua inglesa para "não celibatário”. Isso é desafortunado, porque a definição real do dicionário para palavra “leigo” é “adj. 1. envolvido ou pertencente àqueles que não são do clero. 2. não praticantes ou não especialistas, amadores.”
Existem tanto tulkus celibatários quanto não celibatários, mas não existe "tulku leigo" ou "lama leigo". Não existe lama que possa ser considerado não praticante ou não especialista. São os Lamas quem sustentam ou a ordenação monástica ou a ordenação ngakphang, especialmente na tradição Dzogchen, mas não existem lamas leigos.


Usar o termo "leigo" para “não celibatário” também conduz à confusão quando se fala de ordens religiosas não celibatárias que não são budistas. Uma vez que a sensibilidade política aconselha cuidado com a língua, deveríamos prestar atenção ao inadvertido prejuízo inerente ao classificar praticantes não celibatários como "leigos". Tanto o judaísmo, quanto o cristianismo e o islamismo têm uma associação não celibatária, e seria altamente desrespeitoso classificá-los como não praticantes, não especialistas, ou aficionados não pertencentes ao clero.
A ordenação ngakphang baseia-se nos votos tântricos e, portanto é diferente em seu caráter da ordenação tomada por monges e monjas.

(adaptado da Revista Vision – Primavera 1996, N° 1).

 

 

 

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